Contraponto


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Fundação da Contraponto

Luiz Pacheco cria a Contraponto: Edições e Distribuição em 1950 (Setembro), na rua Rafael Andrade, nº12 1º, Lisboa. Motivado pela ideia de combate ao regime vigente e pela luta contra as instituições. Concebe uma editora cujo objectivo era a denúncia da situação política, social e literária. O trabalho de escrita, revisão, tratamento gráfico e distribuição era, todo ele, feito pelo Luiz Pacheco. Contava com a colaboração de alguns amigos que se propunham para realizar certas tarefas e, por outro lado, garantir a publicação das suas obras.

Inicia a sua actividade com a publicação do primeiro número de "Cadernos de Crítica e Arte" sob organização e direcção de José Nunes Ferreira e Pitta Simões, tiragem de 2000 exemplares mas vendeu-se muito mal.
Artigos publicados: "Sobre a poesia de Carlos de Oliveira"; "Apontamento" de Augusto Abelaira; "O Presidente" de Pacheco; entre outros.
Colaboradores: Augusto Abelaira, Jaime Salazar Sampaio, Arlinda Franco Oliveira, Vasco Vidal, Eugénio Morais Cardigos.

Em 1952 saiu o segundo número de "Cadernos de Crítica e Arte" , com uma tiragem de 1000 exemplares. Desta vez, as vendas superaram as expectativas.
Artigos publicados: Tentativa de publicar uma peça de Garcia Lorca mas foi cortada pela Censura. É alterada por poemas de Pedro Oom e Carlos Drummond de Andrade.
Colaboradores: Luiz Pacheco, Tomás Ribas, Paulo-Guilherme de Eça Leal, Alfredo Margarido, Renato Ribeiro, Manuel Nunes da Fonseca, António Nuno Barreiros, Francisco Aranda, Florentino Goulart Nogueira, Egito Gonçalves.

Em 1962 publica o terceiro, e último, número de "Cadernos de Crítica e Arte". Por questões económicas este número só contém as páginas 1, 2, 7 e 8. A tiragem foi de 1000 exemplares mas 500 ficaram na tipografia da Sertã.
Colaboradores: Luiz Pacheco, Artur Ramos, Ernesto Sampaio, António José Forte.

O primeiro livro publicado pela Contraponto foi em 1951, intitulado "Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano" de Mário Cesariny de Vasconcelos.

Artigos presentes no arquivo da Censura:
A 11 de Setembro de 1953 recebe uma notificação do Grémio Nacional de Editores e Livreiros com a seguinte mensagem: "Acresce o facto de estar editando obras sem autorização dos autores, conforme reclamação apresentada por alguns deles que se dirigiram a este Grémio na suposição de que dispuséssemos dos meios repressivos para por cobro a essa usurpação" . Também com a mesma data recebeu outro aviso relativo à falta de registo nos serviços do Grémio Nacional como editorial .
Em jeito de elucidação, António Maria Pereira (Presidente da Direcção do Grémio Nacional dos Editores e Livreiros) esclarece os vários avisos por parte da Direcção do Grémio Nacional, num seu cartão de visita, redigindo umas singelas palavras. Passo a citar: "Com cordiais cumprimentos cumprindo a sua missão de Director do Grémio, perante este caso, esclarece a título confidencial, que tanto autores como editor pertencem aos chamados "surrealistas" grupo de jovens poetas incompreendidos por quem aprecia João de Deus e Augusto Gil, mas pessoas inofensivas" . 11/09/55 (?)
No dia 7 de Outubro de 1953 enviou um requerimento solicitando desenvolver uma editora designada "Contraponto", destinando-se "à publicação de dois pequenos folhetos anuais de poesia e literatura, sem fins comerciais e unicamente literários". Este pedido foi aprovado nos finais de 1953 .
No entanto, a 7 de Dezembro de 1957 - Luiz Pacheco informa os Serviços da Censura que suspendeu a actividade como editor .

Colecção Teatro no Bolso:

Em 1956 divulga os primeiros números da Colecção Teatro no Bolso, em pequeno formato, que acompanhavam o mundo teatral em Lisboa. Cada volume era vendido a 10 escudos nas livrarias e 5 escudos à porta dos teatros. Em promoção especial, séries de três números pela módica quantia de 15 escudos. Os volumes avulsos custavam 6 escudos. Juntamente com Cacilda Becker, em 1959, percorre o país vendendo estas pequenas publicações com autores consagrados, como por exemplo: Henrik Ibsen; Molière; Alfonso Castelao; Luigi Pirandello; Marquês de Sade; Almeida Garrett; Camilo Castelo Branco; Guillaume Appolinaire; entre outros. Em paralelo, a Companhia do "Teatro de Sempre" também publicava peças de ilustres autores, que facultaram algumas traduções a Luiz Pacheco (funcionário da Inspecção dos espectáculos). Esta Companhia pertencia ao Teatro Avenida de Lisboa, sob a direcção artística de Gino Saviotti e colaboração de Laura Alves e Giuseppe Bastos.

Delfim da Costa:
Nos anos 60, algumas obras foram publicadas com o pseudónimo Delfim da Costa (o cangalheiro da cidade). A origem deste pseudónimo colectivo é contada no verso de um panfleto intitulado "Caca, cuspo e ramela", que passo a citar: "Juntaram-se Manuel de Lima, Luiz Pacheco e Natália Correia, em casa desta, e fizeram um papel com pretensões a anónimo, assinado Delfim da Costa (o cangalheiro da cidade) e titulado Requiem pelos corpos penados mais em destaque no cemitério ulissiponense. Outros artigos que compõem esta colecção: 30 coplas de pé quebrado compostas, musicadas, cantadas por Delfim da Costa, o cangalheiro da cidade; Ária de Delfim da Costa: pro domo sua."

Logotipo:
O criador do logotipo da Contraponto foi o Paulo Guilherme d'Eça Leal. Este está presente na maioria das publicações produzidas pela editora. No caso dos folhetos, panfletos e em stencyl o nome da editora por vezes não surgia no pé da capa ou página ou surgia, em letras normais.

 

Assinantes:
Levantamento de algumas regiões, às quais pertenciam os respeitantes assinantes e contribuintes da editora, nos anos 90. Quer o número de assinante, quer a quota recebida eram apontados atenciosamente num caderno. Luiz Pacheco enviava postais RSF a todos os assinantes presentes na sua lista e conhecidos, avisando-os da nova publicação. Porém, existe um postal que circulou entre os fiéis assinantes que não passou de um mero postal. O título mencionado no postal - As minhas cinco chagas, de mestre Almada Negreiros (ficção e memórias) - não chegou a ser publicado nem produzido. No entanto, recebeu as contribuições, que serviram para financiar a obra seguinte.

Retirado de: Ana Maria Mota da Cunha (2008). Contraponto - Luiz Pacheco. Seminário de História e Sociologia do Livro, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.