Textos


Saga LUIZ PACHECO - parte I
Prelúdio de uma tentativa de campanha para oferecer um ou mais televisores a um escritor maldito

O Luiz Pacheco é velho. Ele sabe-o, mas não se (res)sente. Hoje, está num lar de 3º idade (cheira-me que quer surpreender toda a gente e inaugurar por mão própria a 4ª idade, mesmo com as enciclopédicas doenças que o perseguem). O Luiz Pacheco é escritor. Ou escriba.
Tem 76 anos. Mas é fresco.
por Paula Nunes

 
(Há nomes que todos conhecemos. Luiz Pacheco, diz alguma coisa? Não, nada. Mas já toda a gente ouviu falar no Saramago, mesmo que seja completamente cego e impossibilitado de ler o ensaio sobre a dita incapacidade. E em Vergílio Ferreira também, mesmo que a única aparição que conheçam seja “uma gaja podre de boa”. E Natália Correia? E David Mourão-Ferreira? Se calhar, é melhor não jurar a pés juntos, porque, volta e meia, os putos de 16 anos ainda respondiam que foram membros importantes do governo pré 25 de Abril. Porque tudo o que é velho é pré 25 de Abril, para eles)
O Clix quis fazer uma campanha para lhe oferecer televisores. Porquê? Porque divide o quarto, ao Príncipe Real, com um outro velho (tão velho que passou, ele também, pelo 25 de Abril) que aprendeu algumas coisas quando era novo e pratica a ditadura do comando. Como lá em casa, quando se tem 12 anos e, em vez de se poder ver aquela série de acção em que os heróis nunca morrem mas levam sempre muitos murros e tiros, a mãe impõe a telenovela (que seca! e elas nem sequer têm sexo explícito) ou o pai insiste em ir assistindo ao telejornal entre imprecações contra o governo ou frases danadas contra o estado da nação.

O ditador do comando é obcecado pela TVI. E o Luiz Pacheco odeia a TVI. Quer lá ele saber do ridículo kilt do Marco ou da obesidade repentina da Marta, que a ia impedindo de caber no vestido de noiva. Não quer saber e nem consegue vislumbrar a relevância das personagens. Ou das pessoas.

O Luiz Pacheco é uma pessoa lúcida. Com 76 anos. E a minha missão era empolgar os leitores do Clix de modo a levá-los a oferecer um televisor (um ou mais, que há muitos canais por aí) a este senhor que todos os dias passeia os seus ossos pelo jardim do Príncipe Real.

Achei que estava à altura da incumbência. No fundo, uns quantos artigos sobre o senhor, umas perguntas sobre o passado, para enquadramento contextual dos leitores, umas conversas ligeiras sobre o presente (esta seria a parte mais difícil porque o homem nem sequer sabe quem são a Marta e o Marco... íamos falar de quê?) e já estava. Os televisores apareciam de certeza. Mão à obra. Melhor, ao telefone. Só sabia que ele estava num lar, para os lados do Príncipe Real. Mais nada. Não me ia pôr a bater a zona feita cão de caça.

Um amigo lembrou-me o melhor caminho: “A editora dele deve saber, estúpida!” (O “estúpida” é o atestado de amizade indubitável). E sabia. Lar da Liga dos Amigos dos Hospitais, nº3, Príncipe Real. Perfeito. 118, nº de telefone através da morada (deixam-me escrever uma crónica aqui no Clix sobre a estupidez das gravações do 118? Juro que não sou amiga da PT).

Telefonei um dia qualquer em que estava sol e era já meio da tarde. Atendeu-me um homem. “O Pacheco não está. Deve ter ido ao Jardim. Ele vai sempre... telefone mais tarde, certo?” Não tive tempo de resposta. Seria o ditador do comando televisivo? Estaria irritado por ter sido interrompido entre a genial publicidade a um artigo de limpeza e outra, ainda mais genial, a pensos higiénicos?

Não sei. Nesse dia mandei o Pacheco à fava e não voltei a telefonar. Mas no dia seguinte lembrei-me. E lembrei-me já tarde. Atendeu-me uma mulher, com uma voz guinchante. “O Luiz Pacheco?!” Temi que dissesse que me tinha enganado no número. De repente, lança um guincho “Ah! Ouça lá, você é Luiz não é? E Pacheco?! Também é, não é? Então é p’ra si.” Percebi a tempo que não era comigo.

Ao telefone, no segundo seguinte, Luiz Pacheco lui-même. Um minuto depois e a conversa já tinha acabado e o telefone estava ali à minha frente, quase a rebentar numa gargalhada directa à minha cara. O homem tinha 76 anos. Era o que eu sabia dele. E estava à espera que se portasse como tal. Velhos de 76 anos, encontro-os a empatar nos autocarros com a fobia das janelas fechadas quando está um calor de sufocar e um mau cheiro de matar mesmo quem não tem nariz. Velhos de 76 anos encontro-os a atravessar fora das passadeiras, quando eu vou a guiar, cheia de pressa, e ainda parece que gozam, a 0,005 Km à hora. Os velhos de 76 anos são muito velhos. E é preciso tratá-los com condescendência.

Eu até acho que me mentiram. O Luiz Pacheco não pode ter 76 anos. Então o tipo não sabia perfeitamente o que era um portal e um site e o Clix e a internet em geral??! Fiquei parva. Um televisor?! “Para que é que eu quero essa porcaria?” Mais do que parva, foi o que eu fiquei, juro. “Epá, apareça por aí. A gente conversa um bocado. Mas cedinho, que eu gosto de dar as minhas voltas”. Eu já nem dizia nada. Lá me lembrei de lhe perguntar, à última hora, se queria que eu lhe levasse qualquer coisa de que ele gostasse (eu a pensar em livros, revistas, ou até cigarros ou bebidas, sei lá. No máximo uma caixita de uns comprimiditos quaisquer). E sai-se ele, resposta na ponta da língua: “Venha vestidinha. Muito vestidinha!”

76 anos, o tanas. Este tipo é uma curte. Amanhã vou lá visitá-lo. E com o calor que está, não sei o que hei-de vestir...

Retirado de http://reporter.clix.pt/aventura/25502