Textos


Excentricidade e maldição

O Luiz Pacheco criou uma personagem, contribuiu voluntariamente para levantar uma lenda à sua volta, ou fomos nós que a criámos? As duas coisas. Luiz Pacheco sempre foi um crítico arrojado e um tipo singularmente divertido, um trocista desbragado, com um desplante e uma sem-cerimónia invulgares. Um homem que não levava a sério as regras consuetudinárias nem os convencionalismos da moral. Em suma, alguém que não fazia parte da normalidade social, aquilo que as sociedades consideram um indivíduo «extravagante» ou «excêntrico». Ora bem, por via de regra, todos os grupos humanos têm, sempre tiveram, o seu quinhão de excêntricos, necessitam mesmo deles. O excêntrico é algo que se deve ter, um adorno que fica bem, mais a mais no mundo das artes e das letras, que necessita mostrar a sua diferença relativamente aos outros meios sociais (mais «vulgares»), e cujo prestígio assenta, em grande medida, numa retórica da originalidade e da transgressão. O excêntrico, como no passado os bufões ou os bobos — aqueles que diziam «cousas loucas e cousas acertadas» (Manuel Laranjeira) — é alguém que tem por função divertir, provocar, surpreender, ou seja, aliviar a tensão que nos provocam as exigências dos compromissos sociais.
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Em 1992, a revista K publicou uma entrevista onde Luiz Pacheco distribuía bordoada. Logo de seguida, o jornal Tal & Qual quis saber as reacções dos eleitos. Fernando Dacosta, considerado «pretensioso» por Pacheco, disse que «isso que ele diz não tem importância nenhuma. Estou habituado há 20 anos às suas amizades e traições...». Além do mais, que aprecia mesmo essa faceta do escritor, pela «completa ausência do sentido da decência e da moral tradicional», para rematar com um «que nunca lhe dou a língua...». Já Saramago, também visado, defendeu que se deve analisar as afirmações de Luiz Pacheco tendo em conta «as singularidades da personagem». Como se vê, enquanto Luiz Pacheco correspondesse àquilo que era esperado de uma pessoa como ele, ou seja, «excêntrica», os outros diriam coisas deste género: «Pacheco continua igual a si mesmo», «Pacheco nisto está na mesma: uma língua viperina para quem pisa o risco da sua rigorosíssima ética literária», «Igual a si próprio, este Pacheco».
Esta relação com a «excentricidade» proporciona igualmente um à-vontade pouco comum, o qual autoriza certas audácias e explica que os jornalistas lhe fizessem perguntas que, como é de bom-tom, não são colocadas a outros escritores. O mero percorrer das entrevistas nos fornece vários exemplos: «Tu és um escritor homossexual?» (Tavares Teles, 1988); «Qual o lugar mais esquisito onde fizeste amor?», «E vontade de matar alguém, já tiveste? Quantas coisas fizeste de ilegal ou de condenável?» (B--B, 1994); «Donde é que vem essa massa?» (Rodrigues da Silva/Araújo Pereira, 1997); «Isto tudo vinha a propósito da masturbação. Nunca mais teve sexo por problemas de saúde?», «Que fez aos 700 contos?», «Como é que arranja os 185 contos?» (Mota Ribeiro, 1998).
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Acresce a isto que Luiz Pacheco, que sabia muito bem ao que iam os jornalistas — «P: Vamos lá falar de literatura portuguesa contemporânea; R: Eh pá, querem que eu diga mal?» (Rodrigues da Silva/Araújo Pereira, 1997) —, quando parecia frustrar as expectativas, ou romper esse «pacto implícito» entre ele e os outros (neste caso os jornalistas), via-se confrontado com a exigência de corresponder ao papel que lhe foi atribuído. Vejamos alguns exemplos: «Continuas às voltas e sem responder. Tás com miúfa?», «O Pacheco em pânico é, para mim pelo menos, que te conheço vai em trinta anos, uma situação nova», «Nunca recuaste perante qualquer afirmação» (B-B, 1985); «É a pergunta. E não costumas fugir a nenhuma pergunta», «Que significa essa precaução?» (B-B, 1994); «Não sabia que era tão puritano! Essa preocupação é quase uma novidade! Tem dito tão mal de tanta gente...», «Pelas “reservas” que fez em relação ao novo livro, parece estar menos combativo...» (Santos, 1995); «Um libertino com pudor?» (Cotrim, 1995); «Vamos lá a saber, é hoje que quebra o tabu do Saramago?», «Está com medo de ser prejudicado por dizer o que pensa do Saramago?» (Salazar, 1998). É este o preço, justamente, que o «excêntrico» tem de pagar: continuar a agir como tal, porque isso permite à sociedade possuir uma «teoria sobre ele perfeitamente coerente e susceptível de ser utilizada na previsão de futuros actos extravagantes.»
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Isto me induz a pensar que, embora Luiz Pacheco se tivesse auto-excluído e tivesse adquirido um distanciamento que lhe permitia atacar, sem rebuço, os actores do meio literário, esta «comercialização da excentricidade» por via das entrevistas acabava por contribuir, paradoxalmente, para a conservação desse mesmo meio. E aqui é que está o busílis. «Porque o extravagante não questiona o sistema, simplesmente simula-o com a sua desobediência em relação a regras secundárias, as quais, com efeito, podem ser desobedecidas por alguns sempre e quando ofereçam uma contrapartida que se considere valiosa [leia-se: divertir]. O extravagante, como o excêntrico, está naquele âmbito do contexto que não é o centro, onde se situa a maioria e que são os que definem "verdadeiramente", "a sério", o contexto, e que são, digamos, os seus zeladores. Como as denominadas excêntricas, aquelas peças de uma máquina que giram mas não a partir do eixo central e que são naturalmente do sistema, o extravagante está fora do centro do sistema a que pertence, mas girando, como todos, para esse centro.»
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Luiz Pacheco, sobre isto não há duas opiniões, era havido em conta de «escritor maldito», e para isso algo fez. Senão, vejamos. Em 1971, Luiz Pacheco publicou um texto, em duas partes, no suplemento literário do Diário de Lisboa — «O que é um escritor maldito?» —, onde rejeitava esse atributo que os outros, supostamente, lhe estariam sempre a atirar à cara. Segundo informação do próprio, esse artigo foi escrito em resposta a uma entrevista de Artur Ramos, numa publicação da época, Cartaz, onde ele e Manuel Grangeio Crespo eram apodados de «malditos». Luiz Pacheco explicava, primeiro, quais as «vias da maldição», para depois se excluir delas, mas num tom, diga-se, que não convence. Temos assim, por um lado, o estilo de vida e os comportamentos, normalmente com incidências sociais (por exemplo: alcoolismo, dependência de drogas, boémia), que em alguns casos levam à prisão, ao exílio ou, pelos temas abordados nos livros, à censura ou proibição da escrita. Por outro lado, e como é de regra, um acontecimento que lhes «interrompeu, bruscamente, a obra» (loucura ou morte precoce, por suicídio ou assassínio). Ouçamo-lo, e perdoem-me que demore a citação:
«Por comodidade de exposição, vou dividir os exemplos (repito: apenas portugueses e mortos, e nada exaustivamente) em dois grupos.
a) como acabam, a morte macaca que os findou, signo de confirmada maldição póstuma, voluntária ou involuntária morte e na maioria dos casos resultante (logicamente) de uma vida já em si atribulada;
b) como passaram… por este vale de lágrimas, mesmo que tivessem ao cabo morte calma e sacramentada.
Em a) interroguemo-nos se tal maldição, assim levianamente (quanto a mim) encarada pelos contemporâneos ou os pósteros, se poderá atribuir ao tiro na mioleira (Camilo, Antero, Manuel Laranjeira) ou ao veneno como viático (Mário de Sá-Carneiro) ou à fogueira como meio de transporte cómodo, expeditivo, para o Além (António José da Silva, o Judeu); ao fim prematuro pela doença («quando tanto havia ainda a esperar do seu talento», lamentam as necrologias) e aí estão os tuberculosozinhos (António Nobre, Cesário Verde, José Duro, António Maria Lisboa).
Na segunda alínea b) a noção é mais complexa, até porque o maldito (temos visto) pode arrepender-se a tempo, reviralhar a casaca, converter-se, deixar-se recuperar para o contento geral. E como Deus não dorme, acaba na Academia. (…) Vejamos e por alto: a pedincha (Tolentino), a loucura ou a caquexia (Gomes Leal, Ângelo de Lima, Raúl Proença), o facto, feliz ou infeliz é com eles, de pertencerem, por má sina ou gosto, às chamadas minorias eróticas, por exemplo o homossexualismo (António Botto, Raúl Leal), ou a prática do alcoolismo em doses notórias de tintos e bagaceira — por solidão afectiva? Por desfasamento intelectual, cultural? Sabe-se lá porquê, ao certo (caso do mestre do nosso século: Fernando Pessoa). E ainda: a boémia desgarrada, irreverente, aventureira (Camões, o Trinca-Fortes) ou um qualquer azar ou determinação consciente, coerente, que os levam a largas estadias na cadeia (D. Francisco Manuel de Melo, Bocage), ao exílio forçado (Filinto Elísio, o Cavaleiro de Oliveira, queimado este por cá, em efígie, estando em Londres; quando soube, riu-se e disse para a História: “Nunca senti tanto frio como nesse dia”. Era um humorista… mas ria-se em Londres).»
Os motivos expendidos por Luiz Pacheco para se retirar desta lista, como disse antes, não são convincentes. Limita-se, na essência, a fazer um trocadilho com a palavra maldito, defendendo que ela se aplica, sobretudo, àquilo que está mal dito, ou seja, mal escrito. Logo, por inerência lógica, àquele indivíduo «que escreve mal». Qualquer leitor com uma inteligência mediana, e que conheça um pouco da biografia de Luiz Pacheco, percebe que quase todas as «vias da maldição» ali descritas se poderiam aplicar a ele mesmo, como aliás defende Ana da Silva. Além disso, é um texto que prefigura um acto de fundação do cânone dos escritores malditos portugueses, algo nunca antes tentado de forma tão explícita. Não será pois de todo descabido pensar que, voluntária ou involuntariamente, Luiz Pacheco se inscreveu nessa linha de sucessão, por si delineada, dos «malditos». É que, ao chamar a atenção para algo que não era ainda do domínio público — os amigos apodarem-no de «escritor maldito» —, mesmo que para depois o rejeitar, Luiz Pacheco provocou um efeito de ricochete.
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Além do mais, não é exacto que ser reputado de «escritor maldito» tenha envolvido, necessariamente, o labéu de um estigma, nem tão-pouco poderá encarar-se como um «castigo», o qual explicaria um suposto «desdém», ou «desconsideração», que se teria abatido sobre Luiz Pacheco. Pelo contrário, Luiz Pacheco granjeou a atenção apaixonada da imprensa, que até o tratou muito bem. Apanágios de toda a maneira e feitio mantiveram-lhe, já dizia Camilo, «a temperatura do prestígio»: desde «original» até «genial», passando por «singular», «único», «sem par», «livre», «corajoso», «resistente», «coerente», «lúcido», etc., etc. Alguns exemplos, que falam por si, e isto limitando-me aos textos introdutórios que acompanham as entrevistas, porque a referir a crítica literária — então aí nem se fala — a lista tornar-se-ia francamente mais extensa: «verbo majestoso», «assinou alguns dos mais ternos, comoventes e expressivamente belos textos da literatura portuguesa nossa contemporânea» (B-B, 1985); «Lúcido, impecável no verbo» (Ferreira Alves/Sepúlveda, 1988); «um excepcional escritor e crítico dos nossos dias (...). Em Luís Pacheco o álcool, a lucidez, o espírito crítico, o talento, enfim, andam de mãos dadas» (revista da EDP, 1991); «Fomos entrevistar o maior escritor vivo. O mais escritor, o mais português, o mais vivo: Luiz Pacheco» (Quevedo/Zink, 1992); «uma das grandes figuras da literatura portuguesa de hoje» (Cotrim, 1995); «personagem das mais singulares das letras deste século» (Galhós, 1995); «o grande Pacheco (...). Fez do melhor na moderna literatura portuguesa» (Moura Pinheiro, 1997); «que sempre o acompanhe a lucidez» (Mota Ribeiro, 1998); «o mais brilhante analista da literatura portuguesa. (...) Genial e corrosivo» (Carita/Tentúgal, 2001); «dotado de uma extraordinária lucidez» (Adamapoulos, 2004); «(...) o libertino passeia o esplendor da sua lucidez» (França, 2004); «um homem vertical» (Rodrigues da Silva, 2005); «criatura de inteligência rigorosa, de lucidez sobrenatural, um livre pensador que disse e diz coisas que não são fáceis de serem ditas» (Assor, 2007). Valerá a pena continuar a insistir dizendo que o rótulo de «maldito» lhe deu má reputação?
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É que, se formos ao fundo das coisas, teremos de reconhecer que, ao contrário do que se pensa, Luiz Pacheco não é um escritor ignorado, esquecido ou pouco lido. Por uma razão singela: todos os seus livros ou textos, sem excepção, desde o primeiro, de 1958, a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira, até ao último, de 2005, Diário Remendado (1971-1975), tiveram eco na imprensa. Tanto mais quando o nome Luiz Pacheco, nos últimos vinte anos, ou mais será, é uma presença obrigatória nos dicionários e histórias da literatura, e está incluído em variadíssimas antologias de autores portugueses, como por exemplo Os Melhores Contos e Novelas Portugueses, organizada por Vasco Graça Moura. Não é prestígio, isto? Não é consagração?


A organização do livro

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Luiz Pacheco convertia em literatura tudo em que tocava. A realidade e a ficção, para ele, não tinham fronteiras bem definidas, formavam um todo homogéneo. Nestas entrevistas, que podem ser vistas como um prolongamento do confessionalismo que caracteriza a sua escrita, seja nos textos de ficção, seja na crítica literária, onde tantas vezes aproveitou para contar episódios da sua ampla e sacudida existência, Luiz Pacheco monta o espectáculo de si mesmo e teatraliza a sua própria vida. Nisto, como em tudo o que escreveu, preserva uma assombrosa expressividade coloquial. Ao deslizar destas páginas, surge-nos por vezes com uma imagem menos complacente, o que o torna, também, muito mais interessante. As piores situações, como a vida deprimente num lar de idosos ou a degradação inexorável da velhice, Luiz Pacheco relata-as com uma atitude jovial (uma armadura para esconder a solidão?) e fá-lo sem lágrimas e sem queixas. Tão-pouco se deixa mortificar por arrependimentos ou azedumes.

Luiz Pacheco morreu num sábado à noite, no dia 5 de Janeiro deste ano. Em 1995, questionado sobre a morte, disse: «A morte? Não gosto, não acho graça.» E acrescentou: «Um gajo com falta de ar está, de repente, com a sensação de apagamento... Esta noite, por exemplo, adormeci a meio da telenovela dos Irmãos Coragem. Meti-me na cama. Que faço na cama? Tomo remédios. Comprimido, dou uma bombada e durmo. Eram nove e meia, durmo hora e meia. Passa a acção daquela laracha, acordei às dez e meia, onze horas. Mais dois comprimidos, dou outra bombada, durmo até às três. Mais uma bombada, urino... Sei que acordei eram cinco e meia. Disse assim: bom, esta noite já está. Para um gajo que tem esta experiência há 60 anos, a morte, o que é que você acha que é? É um bocado de sossego, é um descanso.» Oxalá que sim.

A organização deste livro, entenda-se, não é mais do que a afirmação da amizade e da admiração que tributo ao irrepetível Luiz Pacheco.

João Pedro George


Retirado do blogue Pós dos Livros em http://arquivopodoslivros.blogspot.com/2008/02/continuao.html