Artigos


Memórias de Luiz Pacheco (1965/66), 7 de Janeiro 2008

Nas Caldas de meados da década de 60, a sua presença era tão ostensivamente chocante que não podíamos deixar de nos beliscarmos, como nos romances, para nos certificarmos de que não sonhávamos, interrogando-nos como seria possível subsistir uma contradição tão viva com a ordem local estabelecida.
Tudo na sua vida era marginal e provocatório. Assumia a condição de escritor maldito e comprazia-se mesmo nela, ou pelo menos procurava tirar partido da sua própria maldição, reforçando-a sempre que lhe parecia que o "stablishment" intelectual se preparava para lhe "deitar a mão". Recordo-me que quando editou os Textos Locais, um pequeno livro de recolha de textos, em 1966, Virgílio Ferreira lhe enviou um postal elogiando a obra com uma frase em que aludia à possibilidade de ele ser um dos mais brilhantes escritores da actualidade e perguntando qual o preço do livrito para amigos (no boletim de encomenda, admitiam-se dois preços, um para amigos e outro para inimigos). Rápido, Pacheco respondeu qualquer coisa deste género: "Agradeço o elogio, que só é justificável porque eu ainda não publiquei tanto como o Virgílio. Quanto ao preço: são 50$00 para inimigos; 100$00 para amigos como Você ".
A sua condição pessoal era degradante, sob qualquer padrão de análise commumente aceite, no pardieiro que habitava com a rapariguita sua companheira e a prole que gerara, na ausência de auto-suficiência económica e na dependência alcoólatra que exibia (muitas vezes mais inconsequente do que parecia). Transformava essa condição em material literário, do mais fascinante que pude conhecer, e nisso ele era absolutamente único.
Aquele homem, que nos improváveis momentos de sobriedade era culto, vivo e arguto, ia perdendo as faculdades intelectuais ao longo da tarde e noite, cambaleando e falando de modo cada vez mais imperceptível. Só muito raramente, todavia, se deixava abater. Os gestos provocatórios eram proverbiais. Recordo-me de um no Café Central quando um dos empregados lhe chamou a atenção pelo facto de não efectuar qualquer despesa: pediu um café, tirou as meias, meteu-as dentro da chávena e estendeu as pernas magras com os pés nus por cima da mesa.
O ínfimo orçamento da família (composta por 3 filhos pequenos - num total de 8, os restantes dispersos - mais o casal) era suportado pelo salário da sua companheira, Maria Irene, que trabalhava na fábrica de bolos da Frami, e pelas aleatórias fontes de financiamento de Pacheco: colaborações em periódicos, nomeadamente no Jornal de Letras e Artes , vendas de publicações da Contraponto, a sua editora, algumas das quais a "stencil", penhores sobre todo o tipo de bens que pudesse possuír (do mobiliário à própria máquina de escrever) dádivas de mecenas (Manuel Vinhas, e, nas Caldas, António Maldonado Freitas e Vasco Luís), apoios irregulares de amigos regulares (Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Jaime Salazar Sampaio, Manuel de Lima, Bruno da Ponte, António José Forte, Ricarte Dácio, Serafim Ferreira, Vitor Silva Tavares, Ferreira da Silva) e cravanços ocasionais a admiradores ocasionais (a quem se dirigia com a frase proverbial: "Arranja-me aí vintes?").
Luiz Pacheco aportou às Caldas em finais de 1964, vindo de Setúbal. Começou por se hospedar no Hotel Lisbonense, antes de alugar casa na Rua Rafael Bordalo Pinheiro, nº 2, r/c. Visitei-o aqui, uma ou duas vezes. Em Julho de 1966 mudou-se para uma habitação no Casal da Rochida, estrada do Coto.
Tinha 39 anos. Dispunha já então de um curriculum apreciável, como editor, como tradutor e como observador crítico da vida literária e artística portuguesa. Os traços da sua personalidade intelectual estavam definidos: discernimento e ousadia raros como editor, irreverência contundente como comentador, independência e lucidez incómodas como crítico. Efectuara duas incursões no domínio da ficção literária, O Teodolito e Comunidade, que tinham circulado a stencil, em 1962 e 1964, respectivamente. Não publicara qualquer livro.
A vinda para as Caldas suscitou em Pacheco o projecto de uma vida dedicada à literatura. Depois das grandes convulsões amorosas da década anterior, parecia ter encontrado alguma estabilidade. A sobrevivência também parecia assegurada com as colaborações no Jornal de Letras e Artes e na Notícia , com a coordenação de dois ou três grande projectos editoriais, e, claro, a disponibilidade mecenática de alguns capitalistas e o amparo dos inúmeros amigos e admiradores. Nascera em 1925 e aos 40 anos pensava justamente que chegara o momento de fazer prova definitiva do seu talento.
Nada desse projecto pode porém ser cumprido. Um a um os seus pressupostos foram ruindo e a vida pessoal do escritor foi atravessada por tempestadas algumas novas outras perseguindo-o desde o passado. Procurei reconstituir esses tempos no capítulo "O Libertino Passeia nas Caldas..." inserido no título já referido Continuação.
Guardo de Luiz Pacheco, entre outras, duas saborosíssimas (embora, para infelicidade minha, profeticamente erradas) notas pessoais: uma é constituída por uma carta que enviou ao jornal República e que Carlos Saudade e Silva republicou na Gazeta, e intitulada "Atenção para João Bonifácio Serra" (13 de Agosto de 1966). A carta comentava em tom benevolente uma entrevista (certamente entre o ingénuo e o pedante que é o destino quase inexorável de um jovem que se julga destinado ao estrelato literário antes de fornecer qualquer prova sólida do seu talento) que eu dera ao suplemento República Juvenil. De qualquer modo, encerrava um voto de grande simpatia para com os meus 17 anos: "Que nesse jogo de inteligência ele se afirme, e faça obra original como desde já no-lo promete, é o que lhe deseja, apostando em bom augúrio, um camarada mais velho que também por aí passou". A outra nota é a dedicatória do seu livro Crítica de Circunstância , e datada de 4 de Setembro de 1966, a qual reza como segue: "Para o João Bonifácio Serra passando o facho para o seu talento promissor, esta Crítica de Circunstância (enterrada a tempo ou não?".
Em Dezembro de 1966, quando cheguei das minhas primeiras férias de Natal de estudante em Lisboa, encontrei um postal do Luiz Pacheco: "Meu Caro João Bonifácio Serra: Tenho no meu estaminé, no Casal da Rochida provisoriamente e até fins deste mês, uma papelada que gostava de depor no teu sapatinho ... desde que pendures uma de vintes na minha árvore de Natal." A papelada formava três dossiers de que me pediu ficasse fiel depositário. Assim sucedeu até Dezembro de 1998, quando, motivado pela escrita de uma memórias (Continuação: Crónicas dos Anos 50/60, Caldas da Rainha, 2000) resolvi deitar-me ao caminho: procurá-lo a ele e aos seus dossiers. Encontrei estes num velho sótão da casa de família no Carvalhal e soube do paradeiro o escritor num lar em Palmela. Escrevi-lhe. Trinta e tal anos e muitos lances esquinados volvidos, não seria razoável admitir que Pacheco me incluísse nas suas memórias vivas. Mas as Caldas, essas ficaram-lhe bem gravadas, como se pode ver nesta naco da carta manuscrita que me enviou a 17 de Janeiro deste ano: "Você não pode imaginar como as Caldas me estão na memória. Aliás, o texto O Caso das Criancinhas Desaparecidas é um relato, rápido e humorístico assim-assim, dessa época de fins de 64 a 66 e, depois, por duas vezes na cadeia velha até 1968. Um filme que a RTP fez comigo , aí em 1989-91, e passou, apareço eu a falar com o Silva, carcereiro, ao balcão. E não adianto mais, por uma razão (talvez estúpida): gostava de ler ou saber a memória que ficou, em si, de mim".
Apenas duas notas de rodapé a esta carta.
Escrito entre 1968 e 1971 , O Caso das Criancinhas ... , foi editado em 1981 pelo Círculo de Leitores. O leit-motiv do texto está encerrado nesta frase "Caldas da Rainha é a terra onde desaparecem mais criancinhas. Eu que o diga! Gostava muito mais de Caldas da Rainha se por ali não me tivessem desaparecido bastante umas quantas". Pacheco esteve detido pela primeira vez na cadeia das Caldas em Maio de 1967. Transcrevo de carta a Mário Cesariny de Vasconcelos datada de 29 de Maio de 1967: "O calabouço é, no dizer do próprio Dr. Delegado do Ministério Público daqui, uma pocilga. Somos poucos, 5; a comida é bastante boa. Mas o ar é infecto, asma todas as noites, e o coraçãozinho a badalar. Mas Lá Fora está-se bem melhor!". Treze meses mais tarde escrevia a Serafim Ferreira (27 de Junho de 1968): "Fui apreendido. Corolário lógico: depois de encafuarem os livros, segue-se o Autor". Manteve-se na Cadeia das Caldas até 14 de Agosto do mesmo ano, data em que foi transferido para a cadeia do Limoeiro. E que eu saiba jamais regressou à cidade de D. Leonor.

 

Retirado de http://cidadeimaginaria.org