Textos


<<<Sim, jovens, todas as javardices que por vezes vocês ousam escrevinhar nos chats, já gente como o Pacheco escreveu e publicou antes de vocês nascerem. E sabem que mais? É Literatura, com H grande, porque algures, na escolha das palavras, na mesquinhice da vírgula, no arremesso alarve, na exclamação pela bosta de cão pisada, ele pertence a esse Olimpo.
Crónica de LUÍS PEDRO NUNES
 
Fiquei perplexo! O escritor Luiz Pacheco, numa entrevista à revista Focus, directamente do lar de caridade em que se encontra no Príncipe Real, diz que vê o Big Brother mas acha aquilo “um disparate”.
Finalmente aos 76 anos, o libertino alcoólico, o pedófilo míope, tinha ficado senil: estava a pensar “mainstream”, a sua opinião era igual, deus nos guarde, à de um Jorge Sampaio, para não ir mais longe. Que pensamento repugnante.
Nos dias seguintes esperei que a faculdade de Letras organizasse um Congresso com carácter de urgência “BB e Pacheco, ou como o neo-neo- abjeccionismo é ‘disparate’ para o criador do neo- abjeccionismo ou como devem andar a medicá-lo erradamente”. Mas a Universidade Portuguesa, como sabemos, só irá reagir a esta declaração dentro de uma ou duas décadas. Que espiga! E tive que me pôr a pensar. Porque é que o Pacheco acharia o BB, enfim - que termo, homem! - “um disparate”?. E olhei de novo para a entrevista e para o seu perfil. “Tem 8 filhos e esteve cinco vezes preso (por causa das mulheres, ou por casos com a censura)”. E lembrei-me quando o vi, uma vez, na Estrela, calça à meia canela, óculos fundo de garrafa, cabelo tinhoso, camisa borrada de pingas de tintol e saco de plástico cheio de medicamentos.
E assim, achei que deveria relê-lo. Passei os olhos pelo “O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor:
(...) Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas – é a que me tenta”, Ó pornógrafo viscoso, e depois arranca para a tese do “biminete” (deduzam).
Mas decido-me ficar pelas dez páginas de “Comunidade”. Um hino à família:
“Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer (....) Desde que estamos aqui, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima e dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lino ou o Zé) atravessados a nossos pés(...) isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família e ciumeira e choros e berraria, às vezes, resolvidos em família entre risos, lágrimas, bofetões, beijos, descomposturas, carícias leves. Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor faziam na cama, conforme, principalmente, o frio convocados os cobertores (um, ou dois) à pressa, num afã de Salivação Pública (nossa) e seguiam depois para o prego (...)”*

Tudo isto tinha sabor a BB, ou de quando a promiscuidade no seu lado mais suado e pegajoso atinge a pureza. O BB estará já destilado demais, muito naif? Seria o BB1 mais pachecável?
Luiz Pacheco acha o BB um “disparate”. E não bate certo. O BB é apenas um derivado pobre do abjecto. Certo. Mas, um... disparate?
Talvez devamos voltar à entrevista, buscar nas entrelinhas. Será o BB já muito urbano, queque, pouco badalhoco? Sim, jovens, todas as javardices que por vezes vocês ousam escrevinhar nos chats, já gente como o Pacheco escreveu e publicou antes de vocês nascerem. E sabem que mais? É Literatura, com H grande, porque algures, na escolha das palavras, na mesquinhice da vírgula, no arremesso alarve, na exclamação pela bosta de cão pisada, ele pertence a esse Olimpo. Nós copiamo-nos uns aos outros, ou, pior, nem sabemos que estamos a copiar e pensamos estar a criar... Vamos lá reler a entrevista
“(...) P- E o Big Brother nunca viu?
R- Vi, vi. O meu problema é que não tenho o comando na mão e há um rapaz que põe a televisão todo o dia na TVI e tenho que gramar com tudo. É os Olhos de Água é o Super Pai, é tudo. Já pus algodão nos ouvidos e aquelas coisas de borracha e não dá. É o descalabro.” (...)
Agora tudo fazia sentido. Não era o Big Brother que era um disparate. Que é. O disparate é não darem o comando da televisão ao Luiz Pacheco. Eu também não sou capaz de ver TV quando não sou eu que tenho o comando.
Quem é que aquele merdoso do lar pensa que é para pôr a TV todo o dia na TVI e ficar com o comando?
Se eu fosse um gajo decente comprava um aparelho de 100 canais e uma ligação à TV Cabo ao Luiz Pacheco. E o mais provável é que ele me mandasse levar naquele sítio e vendesse de novo a TV e ainda se gabasse de eu ser um tanso, o alarve.
Pelo que me poupo ao trabalho.
De resto tenho pena que não se conheçam: quer dizer, Luiz Pacheco tem milhares de filhos bastardos por este país fora, javardos amorais que buscam na poesia do abjecto a gargalhada que os sustenta.
É pouco provável que ele vos (nos) queira conhecer. E o mais provável era negar a paternidade e recusar-se a aceitar que o Surrealismo deu para o torto, e de repente ficou direito e hoje segue em frente. Pelo que está nas nossas mãos saber as origens deste nosso desconforto e leiam o homem que até escreveu coisinhas curtas, não para vos contentar, mas porque não tinha pachorra para mais e estava-se marimbando.
Arrisquem e leiam, façam como o velho Pacheco que agora, que se diz quase póstumo, tem por lema “vai até onde não puderes”.
Vejam lá se não podia ser esta frase o refrão de um tema para o Toy compor o hino do BB3?

*In “Exercícios de Estilo”, Luiz Pacheco, Editorial Estampa, uma reedição recente do livro de 1971!

Crónica retirada de http://eventos.clix.pt/clixbrother2/voyeur/10120