OBRA


LUIZ PACHECO, O LIBERTINO

Em 1997, Luiz Pacheco, que fez da mendicidade um modo de vida, estava principescamente instalado na Vila Máryah, uma luxuosa estância de repouso para idosos, em Palmela. Eu visitava-o de vez em quando por causa da edição de "Carbonários: Operação Salamandra - Chioglossa lusitanica Bocage, 1865", que saiu na Contraponto, a sua conhecida editora, afecta ao Surrealismo. Raramente o encontrei sozinho, ele tem sempre muitas visitas, de modo que se cruzavam amigos, conversas e destinos. De uma vez deixámos passar a hora de saída e a porta foi fechada, encarcerando os forasteiros. Em vão se procurou o porteiro, nada, um táxi lá fora esperava, a palaciana residencial aninha-se num pinhal isolado, longe da povoação. Caía a noite, e se o taxista desistisse da espera lá teríamos de dormir com o Libertino que passeou por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. De modo que, para aflitivos cárceres, fugas airosas, e foi mesmo pela janela, estilo Zé do Telhado, mas com aterragem de corpo inteiro, mais o saco dos livros desfolhados, no canteiro dos lírios, como convém nestes lances da nossa árdua vida literária.

A situação é suspeita, viola algumas normas sociais, morais até, mas os intervenientes sabem da sua intrínseca inocência, e só isso é fundamental: a moral é um colete de forças que o grupo dominante aplica ao dominado para salvaguardar a sua prepotência, mas o Bem e o Mal são completamente distintos e independentes disso - pode o Mal estar de mão dada com a moral e o Bem contra ela, como foi o caso.

Refiro-me a essa emblemática edição cujo 33º aniversário o TriploV comemora, no âmbito das suas actividades em torno do Surrealismo - O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (Contraponto, 1970). No caso, a imoralidade reduz-se a uns palavrões, que são palavras que todos conhecemos e figuram nos bons dicionários, ao pecado dos maus pensamentos e a um acto sexual. Porém, a moralidade sexual que o livro violou em 1970 hoje já não vigora. Esse acto sexual cometido, único, pois todos os outros são apenas delírios da imaginação, é aquele que neste preciso instante o governo de Inglaterra tenta que as escolas ensinem ou promovam junto dos alunos, num desesperado esforço para que baixe a altíssima taxa de gravidez em menores - a masturbação.

E aqui estou eu a falar destas coisas, como se fossem importantes, e são. A moral muda consoante o grupo dominante e as necessidades do grupo social, o que não muda é a ética. Ora o livro não viola nenhuma ética, pelo contrário: as conversas no quarto da pensão, com o sargento, por exemplo, giram em torno da PIDE, do que se passava em "Angola-é-Nossa", e o texto que o Libertino lhe passa para as mãos não é a "Filosofia da Alcova", sim o "Depoimento de uma angolana", sobre as atrocidades cometidas contra os negros, que tem vindo a ser reeditado juntamente com "O Libertino...". À parte os devaneios de imaginação de um homem cuja libertinagem é quase só mental - e nas Bragas daquele tempo os pensamentos eram tão pecaminosos como os actos -, o espírito ocupa-se de livros, os livros que os portugueses não lêem, a vida acanhada em tempos de opressão, e até a tentativa de sedução das Super-Gèninhas se faz de forma letrada, com os bilhetinhos escondidos na cápsula das castanhas.

A libertinagem, nesse sentido de liberdade sexual sem mais, deixou de ser importante numa época - a nossa - em que as raparigas saem à noite e são industriadas pelos pais no uso de preservativos. O texto, agora, torna-se cómico nesse lado, rimos com gosto de certas situações. Não que tenha perdido a força, mas porque de facto a função do libertino foi a de mostrar quão ridículo era aquele puritanismo, simplesmente esse ridículo só é perceptível quando já não estamos sob o domínio da "idolátrica" - Braga, como símbolo da repressão que a Igreja sempre exerceu sobre o corpo, e desse labéu lançado sobre o prazer. Quanto ao regime, a propaganda salazarista reprimia a mente, a liberdade de pensar e desejar também, enquanto a sua élite se entretinha com os ballets rose. Sob a tirania, ninguém teria vontade de rir, o riso vem agora, em que há liberdade para ele. É claro que num país tacanho, de gente ferozmente agredida no corpo e na alma, não há espaço para D. Juan, Sade nem Casanova, apenas para um pobre diabo que deseja e não alcança - tudo lhe corre mal, e de fracasso em fracasso só lhe resta a solução onanista. É um libertino à escala do país que éramos, por isso tão perfeito retrato nosso que Júlio Moreira, posfaciador da primeira edição, considera que o texto nos dá uma imagem muito mais exacta da realidade portuguesa do que toda uma literatura que se pretende interferente.

Mudados os tempos, o que sobra de "O Libertino..." e de Luiz Pacheco? Sobra tudo, que eu saiba ele ainda não foi estudado como a sua obra merece, perdidos que temos andado nos meandros das querelas pessoais e sexuais. Luiz Pacheco é um escritor absolutamente singular, não só na nossa literatura como em termos gerais. Ele não é um Sade, um Casanova, e isso é importante: pelo contrário, é totalmente diverso. O papel tradicional do macho está subvertido, ele não é um representante do falocentrismo, e nesse sentido não é um agressor, é um agredido. Não é um conquistador, é um conquistado; não é um amante, é um amador. A personagem carrega toda a humilhação e frustração do país.

Tradição fescenina e maledicente encontramo-la entre nós e e noutras literaturas desde as cantigas de escárnio, e não esqueçamos Bocage, mas Luiz Pacheco é muito diferente de Bocage, a sua veia quezilenta e debochada não se acomoda com nenhum parentesco. Surrealismo? Ele nega ter sido surrealista e é num texto surrealista que o afirma e mais: Deus o livrasse de tal - isto logo à entrada de "Pacheco versus Cesariny". Pois sim. Acontece porém que "O Libertino", como todos os outros textos de Luiz Pacheco, só teria sido possível na mundividência surrealista, à sombra da bandeira "poesia e liberdade": vida e obra são a mesma coisa, o anti-herói de "O Libertino" é o próprio Luiz Pacheco, que à data, em 1965, andava nas carrinhas da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a distribuir livros pelas aldeias para alfabetização geral. O desprendimento, a coragem com que se fala daquilo que em nós é mais íntimo e privado, sem a máscara da personagem, a espontaneidade de um relato que não foi decerto fruto de escrita automática, mas aceitemos que foi redigido no dia a seguir ao dos eventos, isso também pertence à esfera de procedimentos do Surrealismo. Ou abjeccionismo, termo aliás usado no texto. E tudo o que se relata aconteceu? É bem possível que sim, por obra e graça de acasos objectivos que juntaram Braga, o Libertino e Angola-é-Nossa num mesmo texto que, só por isso, ganha um volume simbólico não alcançado realmente por obras de esquerda, muito mais direccionadas politicamente.

MARIA ESTELA GUEDES

Retirado de http://www.triplov.com/editorial/libertin.html