Textos



O HOMEM QUE CALCULAVA, por Eduardo Cintra Torres

Há casos em que a obra parece que não se despega do autor. Abre-se os Exercícios de Estilo de Luiz Pacheco e pergunta-se onde não está ele? A vida que levava era o pretexto de cada texto parágrafo linha.

E que vida. Marginal mas no bom sentido, diz Mário Soares no documentário Luiz Pacheco – Mais Um Dia de Noite, de António José de Almeida (Dois, próximo dia 22). Libertino, diz ele mesmo. “Libertinário”, mistura de libertino e libertário, diz um amigo. Ou maltês, vagabundo intelectual, intelectual vagabundo. “Somos cinco numa cama.” “A promiscuidade: eu gosto.” “Somos puros.” Luiz Pacheco em Comunidade, texto obra-prima diz Rui Zink e dizem outros no documentário. Mas que diz o próprio? Diz o texto em que fez da vida a sua obra-prima.
É complicado fazer sobre Pacheco um documentário quando a vida foi a do vagabundo, do às vezes lumpen, do libertino que não se deixa controlar, quando a obra resulta do talento que transcende a vagabundagem libertinagem. Foi tão livre que a sua liberdade pisou a dos outros.
Da sua catrefa de filhos só dois falam para o filme (para o pai), perfazendo a pequena percentagem da sociedade que aceita “O Outro”. Seria fácil reduzi-lo à estranha forma de vida que escolheu, estranha para quase todos os outros. Mas Pacheco foi também leitor voraz, homem culto que não faz da sua cultura poder burguês, foi crítico, tradutor e primeiro editor de diversos autores portugueses e estrangeiros.
O documentário dá conta disso. Mais Um Dia de Noite faz-se de depoimentos e da recriação de textos de Luiz Pacheco por um actor (João Mais) na rua, no Terreiro do Paço, Rua Augusta. Textos de Pacheco com a sua vida como pretexto são lidos declamados gritados no coração da cidade, provocações apelos pedidos de esmola aos leitores transeuntes telespectadores.
Um homem só no alto de um banco ou atravessando as arcadas do Terreiro grita-nos os seus exercícios de estilo não sem que antes o documentário nos mostre o seu universo onírico em pequenos momentos de imaginação digital. O testemunho de autoridade estrutura-se sobre três depoimentos. O do filho Paulo, que é da vida que fala, o do editor Vítor Silva Tavares amigo e admirador que já em 1971 escrevia dele para ele “tu, meu escritor preferido” , que mistura a vida com a obra, e o de Rui Zink, que fala da obra.
No lar que habita, o próprio Luiz Pacheco, terminadas as vagabundagens literárias e vividas, dá um depoimento que parece que não acrescenta os seus textos mas confirma o espírito indomável e também calculista de quem se aproveitou dos amigos e da sociedade para poder ser libertino. Porque ele era “O Homem que Calculava”, texto dele mesmo e retrato de si, o calculista que dividia os amigos e conhecidos em alínea a) e alínea b), “os que queriam que ele se empregasse” e “os que lhe achavam graça mesmo assim”. Os primeiros eram os pequeno-burgueses, burgueses pequenos presos pelas regras, as “réguas apertadas” do mundo. Os segundos “achavam-lhe graça” por “fazer coisas engraçadas, por levar uma vida engraçada”. Eram estes “uma gente bem definida: ou boémios vivendo alegremente dessa boémia; ou gente instalada num viver burguês e pacato, sem pretensões intelectuais ou artísticas de espécie alguma e que viam nele O Outro, o oposto. Isto é: eram gente que tinha afinidades com ele e que na camaradagem dos boémios e dos vagabundos se acolhiam e entreajudavam ou uma gente inteiramente diferente dele, sua antípoda, que não temiam a sua concorrência e achavam-lhe um ar exótico e pagavam para isso”.
Dezenas de anos depois, o depoimento de Pacheco no documentário enquadra-se como versão vernácula desse texto notável. Na obra nas entrevistas seguramente na vida Pacheco diz escreve o que pensa o que vive faz o que quer. Quase todo o mundo fica sem saber como reagir e reage como a alínea a) ou como a alínea b). Ele é tão inclassificável (“Eu não me considero coisíssima nenhuma. Eu considero-me um gajo que está aqui sentado”, diz, numa entrevista em http://esplanar.blogspot.com) que o documentário precisa de intrincar a obra na vida como única forma de procurar entendê-lo e mostrá-lo ao mundo quase todo com dificuldade em aceder à pessoa e aos textos.
Este documentário está contra a alínea a) mas ao valorizar muito o engraçado e o pitoresco de Pacheco chega a pôr-se a jeito para que Pacheco o incluísse na alínea b). Mas é um documentário valioso, abre uma porta de acesso, uma alínea c). O espectador acha piada ao Outro mas pode ser que às tantas ainda acabe a ler-lhe os livros. Até porque a ideia de que só há duas alíneas é um exercício de estilo do homem que calculava.

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Um homem que calcula cada imagem, cada palavra, cada sequência, esse homem é Martin Scorsese, realizador de eleição, coração italiano, cabeça americana. Na série documental A Minha Viagem a Itália Scorsese faz o que não fizeram os europeus: uma homenagem extraordinária ao cinema do país dos seus pais e avós (Dois, terças). É uma viagem pessoal porque mistura a sua vida a sua experiência a sua visão com a análise de grandes filmes italianos. Muitos influenciaram o seu cinema e o da sua geração. Scorsese conhece profundamente estes filmes e emociona-se ao falar deles, mas ao comentá-los para a câmara no seu ambiente caseiro de ambiente italiano ou no seu bairro italiano de Nova Iorque o comentário é absolutamente certeiro na análise e conduz o espectador a entender a cena mostrada, o filme, a história social em que se inscreve.
Scorsese comenta extractos de filmes relacionando-os várias vezes com a sua experiência de espectador em miúdo no cinema ou de um canal de televisão dedicado ao público italo-americano de Nova Iorque. Filmes como Roma, Cidade Aberta, Paisa, Alemanha: Ano Zero, Stromboli, Europa 51, Sciuscià, Ladrão de Bicicletas, A Terra Treme, Senso, La Dolce Vita, A Aventura, O Eclipse, Fellini 8 ½.
Esta série de 1999 é uma lição de cinema, arte, técnica, história. Alguns dos filmes citados por Scorsese passam, às vezes, no ARTE, canal condenado à posição 87 da terrível caixa digital da TV Cabo Portugal. Mas é lamentável que nem a Dois nem nenhum canal generalista português nem nenhum dos vários canais de cinema dos pacotes por cabo passe um que seja destes clássicos do cinema italiano e europeu, do nosso passado europeu comum. E depois há lamentos de que os europeus não ligam à Europa. Como diria Luiz o homem Pacheco que calculava, esta gente desgostante e fracassada não merece a menor consideração. Nem confiança.

2005