Textos


Luiz Pacheco - Editor, Escritor e Crítico

Em Lisboa, no quarto do lar onde mora, movimentos limitados, vista embaciada, ouve música e notícias, com a solidão alimentada por memórias e com notável lucidez. A sua impulsividade deu lugar à serenidade. Sem complacência nem autocomplacência nem perda do gosto de provocar. Nascido em Lisboa (1925), fez o liceu no Camões e foi para a Faculdade de Letras, que deixou por falta de meios. Em 1945, começou a escrever, a editar-se e a outros: revelou em português Apollinaire, Büchner, Ionesco, Kleist e Sade, nomeadamente. Vendeu livros e panfletos, colaborou em jornais. Autor de culto, com O Libertino..., O Teodolito, Comunidade. O marginal da nossa república das letras teve sempre vida instável.

ELISABETE FRANÇA (7 Janeiro 2004 - DN)

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No Outono do patriarca

Aos 78 anos e há tantos com problemas de saúde, é um resistente.

Sim, pois sou. Tenho é de estar calmo, não ser sujeito a tensões.

A vista já não o deixa ler?

Quase nada. O oftalmologista falou em operação mas não quero. Ouço rádio: a Antena 2, onde se pode ouvir música e notícias. A TSF também. Televisão, quase nenhuma. Também não interessa.

Música e notícias preenchem quem dedicou a vida à leitura e à escrita?

É preciso ter calma, paciência, resignação. O que é que posso fazer? Com estas fotocópias [muito ampliadas], dum diário que vem de 1970, comecei um trabalho, um Diário Remendado, de corte e costura, a escolher e juntar partes. Fala de gente gira que me aparecia, uma espécie de hippies. É para escolher, aí dumas mil páginas, 200: dá um livrinho, vou fazendo.

Para sair na Oficina do Livro, que reeditou há meses Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus e as crónicas?

O dinheiro dá-me jeito, mas não é o mais importante. Primeiro hei-de tê-lo pronto e a vista vai pior: as pessoas também têm prazo de validade, é a memória, é tudo...

Apesar das falhas de memória, ainda vive de memórias?

A desfazerem-se!... Mas ainda é o que me vale.

Que balanço faz da sua obra?

Além dos autores que editei, os meus livros eram mais selecções de artigalhada saída nos jornais.

E O Libertino, Comunidade, O Teodolito, livros de culto para tanta gente?

Têm o seu mérito. Mas a minha escrita está bastante ultrapassada.

Qual desses livros considera melhor?

O Teodolito tem mais garra.

O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor não é a caricatura dum pseudolibertino do Portugalzinho salazarista?

Aquilo foi uma vivência, é literal. Uma maluqueira regada a vinho verde, escrita de memória, à mesa, à espera do almoço. Tive foi noção de que, passado em Braga, a cidade dos arcebispos, era mais provocatório. Há um bocadinho de saber literário na escrita, mais nada, e também era isso que gostava de mostrar. A Célia e o Vítor Silva Tavares passaram o texto à máquina e puseram-no a circular policopiado. Depois foi publicado em 1970 e teve várias edições.

Consta que deixou a função pública para ser um profissional da escrita.

Não, não, isso é uma versão.

E a sua versão qual é?

Arranjei emprego na Inspecção de Espectáculos, aí em 1947-48, e fiquei 12 ou 14 anos: ganhava 600 escudos, não era bom. Mas tínhamos uma espécie de associação criminosa: passavam-nos pela mão centenas de escudos em selos fiscais, sem controlo, e dava para voltar a vendê-los. Depois, por cansaço, pedi demissão, estava na iminência de ser preso ou casar. Fui mesmo preso, casei na cadeia.

Só desgraças! Porque foi preso?

Preso estou agora aqui, as pernas deixam-me ir até à janela ou pouco mais. E o casamento... fui condenado pelo chamado crime de estupro, que, hoje, é horroroso.

A partir daí, passou a viver com grandes dificuldades financeiras.

Vivi de muitos cravanços, senão não tinha conseguido subsistir.

Uma via de transgressão e punição?

Há muita lenda. Mas houve um período em que bebia muito e nem gravava o que fazia. Andava pelas livrarias e pelas ruas, bebia uns copos de tinto. Não bebo há anos, não posso, mas foi uma luta.

A lenda inclui o rótulo de escritor maldito, que recusa. Porquê?

Desvia da verdadeira questão. Acham-me chato e um chato tem de ser afastado. É a técnica de abafador, usada, no tempo da Censura, com escritores que não podiam publicar com o nome deles, para não os chatearem, uns pela política, outros pela panasquice.

Por falar de sexo... as mulheres são apenas fêmeas nos seus livros. N'O Teodolito, o objecto do título é um símbolo fálico em si mesmo.

Não. Não sei. Não é o culto do falo, isso cultivam os casapianos: tive um filho na Casa Pia e conheci a lenda dos gansos, era uma escola de vida. Aquilo de que o povo está agora cheio, nas notícias, é prostituição masculina, outra coisa.

A propósito. As suas histórias com adolescentes, hoje, fariam condená-lo por pedofilia.

Ah, pois! Ia preso. Mas as miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia nenhuma.

Quer dizer que não havia a sensibilidade desenvolvida com os casos belga e inglês, das crianças mortas?

Havia lá! Nunca ninguém me acusou disso. No caso em que fui condenado por estupro, eu tinha 17 anos e a rapariga 14, sexualmente feita: era a estopa ao pé do lume. Ardia. E uma pessoa também pode ser confrontada com assédios.

O rapaz d'O Teodolito era assediado pela criadita?

Não. Tocavam-se pelos corredores. Esse foi o primeiro caso e não fui preso por ter fornicado a miúda, mas porque o tio pensava que eu tinha massa e fez queixa.

E o caso que inspirou Comunidade?

Comunidade é o radioso de ser patriarca daquela gente toda.

É radioso ser patriarca? Porquê?

É, é. Bom, sou um bocado... não sei se judeu ou o quê.

Foi pai de quantos filhos e filhas?

Sete e meio: um não sei se é meu.

Os seus livros são da ordem patriarcal. Sem contraponto de matriarca. Ou, por outro lado, da mulher companheira, equiparada ao homem...

Não, não. Eu também não estava para gramar, não dava nada.

Intimidava-o?

Sei lá!

Quando tinha afinidades intelectuais não tinha atracção erótica?

Nas raparigas, eu gostava era do natural, primitivo.

Do PCP ainda gosta?

Já não tenho idade para isso. Foi uma ilusão de época.

MEMÓRIAS DUM EDITOR DE VANGUARDA - Evocações do primeiro editor português de Sade, dos surrealistas, de Herberto Helder

Quando se tornou editor?

Comecei em 1945, com o Bloco, e, nos anos 50, criei a Contraponto, que me deu prejuízos sucessivos. O rendimento clandestino é que equilibrava.

Que problemas teve com a Censura?

Um editor que, a partir de 1960, publicasse um tipo novo, tinha sempre a ameaça de a PIDE ir à tipografia e destruir os livros.

Viveu situações dessas.

Sim, sim, com dois ou três livros. Mas rodeava-me das maiores precauções e, quase sempre, quando a PIDE aparecia, tinha grande parte da edição vendida, por assinatura. Apanhei um susto quando publiquei o Manuel Laranjeira: tinha em casa ainda uns cem exemplares para mandar a assinantes e um dia, ao chegar com a minha mulher, tinha, à porta, um pide que queria saber onde morava o doutor Manuel Laranjeira. «Mora no cemitério de Espinho», respondi. O tipo podia dar-me uma lambada, mas não. Disse que havia também uma coisa escrita por mim, contrapus que era pequenina e, como a porteira lhe tinha dito que eu fazia dicionários, já não entrou. Se entra, dava com os pacotes. Metemos logo tudo em cestas e levámos ao correio.

Eram tácticas de combate...

O conhecimento da engrenagem, na Inspecção de Espectáculos, ajudava-me a jogar no terreno.

Entre a sua actividade de escritor e crítico e a de editor, qual avalia como mais importante?

Tenho uma bolsa do Ministério da Cultura, por mérito cultural, e é justo sobretudo pelo que editei: foi alguma coisa lançar Cesariny (embora o Eugénio de Andrade lhe tivesse publicado o primeiro livro), Natália, Manuel de Lima, António Maria Lisboa, Herberto.

Prova de capacidade para reconhecer valores literários.

Sim, não os valores comerciais. Alguns desses autores estão muito esquecidos, como o Manuel de Lima, autor de Malaquias, ou o Lisboa, que morreu muito novo.

Qual foi, a seu ver, o maior poeta dessa geração surrealista?

O Cesariny é uma figura ímpar. É poeta-pintor, não é pintor-poeta.

Foi o primeiro editor de Sade aqui...

Publiquei Diálogo entre Um Padre e Um Moribundo.

Dantes não era muito mais difícil os novos autores publicarem?

Era devido ao regime político.

Hoje, qualquer bicho-careta publica livros de seguida, não acha?

Se for mais fácil publicar, é porque os livros se vendem, não quer dizer que se leiam. Há quem venda bem. A Rita Ferro, o Miguel... filho do Dr. Tareco [alcunha de Francisco Sousa Tavares], que tem tido um sucesso maluco, uma propaganda doida. O tipo é mediático, as pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.