Textos


A literatura é para comer

'Diário Remendado' tem episódios pícaros, inventiva estilística,
interlúdios oníricos, desabafos políticos, anotações literárias e
momentos anedóticos -
Pedro Mexia

A escrita de Luiz Pacheco sempre conteve elementos diarísticos. Não
somente porque o escritor utiliza elementos pessoais nos textos mas
também porque existe uma imagem de Luiz Pacheco que precede (e às
vezes substitui) a leitura dos seus textos. Diário Remendado
1971-1975 é apenas uma concretização mais imediata dessa ideia.
Depois de várias tentativas abortadas ou abandonadas, este diário
vem finalmente a lume, com fixação de texto e posfácio de João Pedro
George, biógrafo pachecal e seu discípulo em virulência crítica.

Um diário de Luiz Pacheco é como qualquer outro livro de Luiz
Pacheco há prosa de primeira água, há vernáculo desabrido, há
detalhes desnecessários, há um narcisismo cruento (cito) que
sublinha a imagem desgraçada do escriba sujo, endividado e
esfomeado, aqui escrevinhando na sua cama em Massamá nos anos
setenta. Luiz Pacheco não é apenas esta imagem, mas vive muito dessa
imagem "bêbado, maluco, panasca, teso". Aqui aparece esse sem
disfarces esse Pacheco eternamente teso (nos dois sentidos) e
obrigado a ganhar o cacau em biscates como traduções ou
artigalhadas. Mas também fazendo reedições aldrabadas ou de luxo
porque sabe que tem um público que paga tudo e papa tudo. E
recorrendo a uma pedinchice constante entre mecenas, amigos,
assinantes. Algumas passagens deste texto parecem apenas uma
contabilidade de ganhos e gastos, natural em quem conta tostões.

Grande parte das anotações deste Diário Remendado dizem respeito à
intimidade de Pacheco. À sua saúde periclitante, com doenças,
achaques, ataques, medicações e consultas. Ao alcoolismo e à loucura
que o assustam. Às tentativas (sem sucesso) de consumos comedidos. A
isso se soma a miséria sexual engates com meninos e meninas,
decadência física, masturbações. O mais curioso, nesse aspecto
pessoal, é a extrema seriedade com Pacheco analisa as pessoas que o
rodeiam, agora já não numa comunidade como outrora mas numa boémia
desfeita e azeda, com cenas e tricas cansativas minuciosamente
descritas mas redimidas pelo desvelo desajeitado pelo filho então a
seu cargo.

Pacheco não esconde que é muito zeloso da sua reputação e da sua
posteridade literária. É isso que explica que se zangue tanto com a
sua produção escassa, ou pelo menos com a ausência de uma obra de
fôlego, independente dos textinhos alimentares. Pacheco admite no
entanto que não tem imaginação, e que está condenado aos textos
críticos (cheios de farpas ao meio literário) e aos textos pessoais
(hábeis montagens de cartas, textos confessionais e
memorialísticos). O que mais o amofina é ficar assim confinado a um
estatuto de menoridade, ainda por cima sujeito aos anticorpos que
resultam da sua franqueza inconveniente. Diário Remendado acompanha
as indecisões e agruras em torno das colectâneas Exercícios de
Estilo (1971), Literatura Comestível (1972) e Pacheco versus
Cesariny (1974), com contactos com editoras e tipografias e provas
emendadas. Mas também se entregue a uma listagem pessimista de
projectos futuros.

Pacheco deseja acima de tudo sossego para escrever, para elaborar
calmamente uma Obra. Essa Obra, especula, pode ter a sua génese no
próprio diário, pacientemente mantido em cadernos pretos "Aqui
(parece-me) sou eu. Como na Comunidade, n'O Teodolito ou n'O
Libertino ainda era eu, sob a capa de uma fórmula para o público
(...). O salteado nos dias e meses deste pseudo-diário, o desconexo,
o incompleto casual, são condições de mim. Um escriba de
circunstância. Um tipo que queria ser escritor mas antes queria ser
um homem livre" (pág. 151). Ao mesmo tempo, Pacheco reconhece que os
seus amigos que conhecem a existência do diário receiam ser alvos e
cobaias. O que gera novos conflitos.

Meio projecto ambicionado e meio projecto falhado, este Diário
Remendado é assim uma acumulação sem disciplina de episódios
pícaros, inventividade estilística, interlúdios oníricos, desabafos
políticos, anotações literárias (Ba- taille, Beckett, Lawrence,
Lowry, Sade, Sartre, entre outros) ou momentos anedóticos (exemplo
os textos de Marx que curam a asma ao asmático Pacheco).

Estes fragmentos desamparados revelam o Pacheco que ama a literatura
e detesta a literatice (comentário às cartas de Pessoa a Gaspar
Simões "é só literatura"). Pacheco define o género diário do mesmo
modo que define a literatura: como algo sincero e radical "Quando
rebati a idiotice do escritor maldito estava a atacar frontalmente
(...) um modus vivendi em que a maioria se deleitava viver a melhor
vidinha possível, considerando a Literatura não um acto de
conhecimento e afirmação (...) mas uma mercadoria mais na sociedade
de consumo. Uma mercadoria elevada, de alta condição, nobre, assim
mais ou menos o que, na Era dos Descobrimentos, seriam as
especiarias do Oriente longínquo um condimento refinado. Não um jogo
de vida ou de morte (connosco, com o Outro, com as palavras e as
formas) - e era por aí que eu ia" (pág. 182). Há momentos em que
este texto é excessivamente "ressacas, juras de não voltar a beber,
conflitos com o Paulocas [o filho] banalíssimos ou quase,
sentimentalismos serôdios e punhetas sem gosto, panascarias " (pág.
242). Mas noutros é sobretudo isto: "ora jornal do libertino, ora
antídoto contra a desmemória, ora processo de conhecimento próprio,
ora diário do escriba. Com suas presunções preocupações" (pág. 104).
Diário Remendado é talvez o melhor diário íntimo português, embora
não o melhor diário português.

Lisboa 30.09.05

Retirado de http://dn.sapo.pt/2005/09/30/artes/a_literatura_e_para_comer.html